• Margarida

#FashionTalks com Tânia Dioespirro | Ser freelancer de moda em tempos incertos

O seu nome devia ser sinónimo de bom gosto. O seu imaginário faz-nos sonhar e a sua estética é inspiradora. A moda sempre fez parte da sua vida. Foi também na moda que os nossos caminhos se cruzaram um dia, longe do Porto do seu coração.  A Tânia (@tania_dioespirro) é Stylist freelancer, e quisemos conhecer um pouco mais desta verdadeira influenciadora do bom-gosto. O seu dia a dia e como se mantém positiva uma feelancer na área da Moda, nesta crise sem precedentes.

Margarida: Como aconteceu o processo de transição desde deixares de estar vinculada - a full time - a uma empresa para te tornares freelancer? Qual foi a tua principal motivação?

Tânia: Foi um processo que aconteceu de forma muito natural; comecei a minha carreira como trabalhadora independente aos 18 anos quando surgiu a oportunidade de ficar agenciada pela Best Models. Na altura tinha acabado de entrar para a faculdade, e conciliar os estudos com o trabalho fez-me aprender a gerir o meu tempo. Sinto que essa aprendizagem me é muito útil atualmente, a trabalhar como freelancer, daí não ter pensado muito quando surgiu a oportunidade de seguir este caminho. Ter tido empregos a full-time também me ensinou outras coisas, e sinto que foi super importante passar pelas duas experiências para compreender a diferença entre elas. Não consigo dizer que um contexto de trabalho é melhor do que o outro. Ser freelancer tem a vantagem de poder gerir o meu próprio tempo, mas a desvantagem de nunca ter certezas sobre o dia de amanhã. Há coisas boas e coisas más em ambos, e honestamente não excluo a possibilidade de voltar a trabalhar a tempo inteiro para uma empresa.

M: De modelo a designer, e de designer para Stylist. Sentes que houve um mentor ou um momento de verdadeiro turnover que tenha moldado o teu percurso?

T: O meu percurso foi-se traçando de forma muito fluída. Como dizia ali acima comecei a trabalhar aos 18 anos como manequim, ao mesmo tempo que entrei para a faculdade para estudar Design. Logo a partir dessa altura compreendi que gostava muito mais do backstage do mundo da moda do que estar propriamente na mira da lente. Fui continuando a estudar enquanto trabalhava e decidi fazer o Master em Design de Comunicação, já com a plena noção de que adoraria vir a trabalhar em Comunicação de Moda e produção de conteúdos visuais para esta área. Assim, o meu primeiro emprego a full-time foi no departamento de Marketing da Fashion Clinic (onde, aliás, te conheci 😊 ). A minha função era designer, mas em equipa acabávamos sempre por fazer um bocadinho de tudo o que era necessário para criar conteúdos, incluindo styling. Quando decidi que queria voltar para o Porto tentei compreender o que é que queria realmente fazer e comecei a fazer alguns photoshoots como Stylist, acabando depois por ir trabalhar para a Farfetch. Simultaneamente foram surgindo cada vez mais trabalhos como freelancer e, quando tive de optar, abracei este caminho. Tive várias pessoas que conheci nos meus tempos de manequim (e que se tornaram meus verdadeiros amigos) que me ajudaram e orientaram. Hoje em dia tenho o privilégio de continuar a trabalhar com eles.

M: Ao prestares os teus serviços como Stylist estás, naturalmente, a ceder o teu bom gosto. Com esta tua distinção estética e gosto apurado, nunca te passou pela cabeça criar algo mais “real”, um produto, uma marca?  T: Muita gente me pergunta isso! Mas eu, pelo menos para já, não me imagino a desenvolver uma marca ou um produto. Acho que o mercado está repleto de marcas competentes, e a mim dá-me mais prazer contribuir para o seu sucesso com o meu input do que pensar em criar mais uma de raíz. O que eu mais gosto no meu trabalho é do desafio de ter de me adaptar a estéticas e abordagens totalmente diferentes. E adoro ajudar os meus clientes a vender! Enche-me de felicidade quando um cliente me diz que a campanha foi um sucesso e que vendeu super bem a colecção. Isso é o que me dá mais prazer no meu trabalho.

"O que eu mais gosto no meu trabalho é do desafio de ter de me adaptar a estéticas e abordagens totalmente diferentes."

M: Cá para nós, que sabemos que de glamoroso o nosso trabalho só tem o resultado final, como funciona a preparação de um shooting na ótica da fashion stylist?

T: Como eu costumo dizer, o ‘Glamoroso Mundo da Moda’ tem contornos muito pouco glamorosos (mas altamente desafiantes e aliciantes) na maior parte das vezes. Na sua maioria eu acabo por fazer não só o styling mas também a direcção criativa dos shooting. Vou descrever processo de, por exemplo, uma campanha: Após a marca/designer me pedir um orçamento e este ser aprovado reúno com o cliente para conhecer as peças que vamos fotografar, a história por detrás da colecção, o Target a que se destina e o histórico de campanhas e sua receptividade por parte dos clientes. Com base nestes pontos preparo nos dias seguintes um moodboard com a proposta da campanha, que deve incluir a história que tencionamos passar, o tipo de location, os props, o tipo de manequim e claro, a abordagem que vou fazer ao styling.

Depois de debater estas ideias com o cliente, e quando está tudo alinhado, avançamos com os preparativos: casting, reperage, juntar a equipa (fotografia, vídeo, cabelo, makeup e produtora) e preparar os coordenados. A mesma colecção pode ser conjugada e acessorizada de formas totalmente diferentes em função do que queremos como resultado final, e conseguir essa transformação é uma sensação maravilhosa! No dia do shooting já deve estar tudo preparado para ser só juntar as peças do puzzle e ver as ideias materializarem-se! Quanto mais bem preparado estiver o trabalho, menos margem de erro existe no dia da sessão, pois nesse  ‘dia da verdade’ há sempre coisas que podem ter de ser adaptadas e resolvidas, mas quantas menos melhor!

M: Estamos a viver momentos de grande incerteza, que nos deixam ansiosos e desconfortáveis com o futuro. Como enfrenta uma feelancer na área da Moda (que sabemos não estar na lista de prioridades de consumo e investimento) esta crise sem precedentes? T: Confesso que com muita ansiedade e algum medo! Tal como referi, uma das maiores desvantagens de ser freelancer é a incerteza de como será o dia de amanhã. Essa incerteza multiplica-se infinitamente quando estamos perante uma pandemia mundial sem precedentes. É muito frustrante (tanto para mim como para grande parte das pessoas) tentar construir um negócio com esforço e dedicação e de repente ficar tudo em causa por factores que nos são externos. Mas é importante acreditar e manter o positivismo porque a área da moda, mesmo não pertencendo ao grupo de bens essenciais, emprega uma quantidade enorme de pessoas (desde que o tecido é feito até que a peça chega ao consumidor) e pôr em causa a sua continuidade é por em causa o sustento de inúmeras famílias.

M: Sentes que, de alguma forma, vamos ter que reinventar a forma como trabalhamos em Moda?

T: Acredito que sim, principalmente nesta fase inicial de regresso ao trabalho. Acho que se vai ter de trabalhar com condições muito mais controladas, equipas mais pequenas, e com muito mais cuidados. Além de que acredito que por uns tempos teremos de trabalhar maioritariamente com fornecedores nacionais para assegurar a resposta segura às necessidades. Vamos ter de ser criativos na forma como fazemos as coisas com os meios que temos e, provavelmente, com orçamentos mais apertados. 

Esta crise vai-nos fazer ponderar melhor a forma como investimos o nosso dinheiro e vai motivar-nos a, quando for para investir, fazê-lo em marcas nacionais para ajudar a recuperar a nossa economia.

M: Como encaras a situação em Portugal? De que forma acreditas que a crise vai mudar os nossos hábitos de consumo? Sentes que é cedo para começar a traçar caminhos?

T: É impossível prever o que vai acontecer, mas posso partilhar a minha opinião. Eu acho que esta crise nos vais fazer ponderar melhor a forma como investimos o nosso dinheiro e nos vai motivar a, quando for para investir, fazê-lo em marcas nacionais para ajudar a recuperar a nossa economia. Isto levanta algumas questões, porque temos em Portugal várias empresas que vivem de exportação e, se globalmente se passar a pensar assim, precisamos mesmo de conseguir fazer com que essas marcas passem a viver das vendas internas para substituir as quebras da internacionalização. É uma ginástica complexa e difícil esta nova realidade, mas não nos resta opção senão acreditar que tudo se irá resolver com o tempo.


Todas as fotografias têm direitos reservados da própria Tânia (@tania_dioespirro).



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